Aventura no centro

Por conta de uma besteira que não vem ao caso, tive que fazer dois meses de fisioterapia. A clínica ficava na rua Galvão Bueno, perto da praça da Liberdade.

(No mesmo prédio da Flor de Fogo Kimonos, que não visitei por receio de que o estabelecimento comercial frustrasse as expectativas que seu nome criava. A não ser que na Flor de Fogo se vendessem quimonos em chamas e as atendentes usassem flores de cerejeira no cabelo.)

Ao final de cada de sessão, por volta das onze da manhã, eu aproveitava pra perambular pelo bairro. Mais de uma vez por semana passava no Kintarô pra tomar café e comer a esfirra deliciosa que dona Líria encomenda de um velho japonês. Não sem algum constrangimento, pois, com exceção da esfirra, todos os outros salgados do bar, ótimos também, são feitos por ela. Culpado, às vezes eu comia um bolovo ou uma coxinha, depois da esfirra, pra compensar.

Mas a Liberdade é meia dúzia de quarteirões, e achei que eu já estava me repetindo ao voltar sempre pra casa com um rolo de hossomaki na mochila. Decidi explorar melhor o centro, que conheço pouco e é vizinho da comunidade oriental.

Desci a Benjamin Constant como quem anda pela primeira vez numa cidade estrangeira.

Edifícios do século 19 com o térreo ocupado por lojas de xerox. Botecos com frutas (algumas de plástico) pendendo de barras acima dos balcões. O Café Girondino e o Café Martinelli. Uma doçaria portuguesa de dois andares. O Solar da Marquesa —paredes de taipa de pilão.

Uma porta verde com aldravas douradas. Um toldo de ferro art nouveau de um hotel que um dia deve ter sido lindo. A Casa do Cartucho. Cabeça de Mercúrio. Quiosques de engraxates. Uma placa em homenagem a Adoniram Barbosa e uma estátua em homenagem a Zumbi. Por toda parte, capinhas pra celular.

Tirei os olhos da paisagem e reparei nos olhos das pessoas. Anotei: “olhos são rasgos na paisagem (opaca)/ quando a gente VÊ os olhos todo o resto desaparece, inclusive os CORPOS/ olhos 
entregam de bandeja (todas as emoções)/ as pessoas são os seus olhos ou o que está por trás deles, nenhuma pessoa é uma orelha”.

Foi aí que, perto do largo São Francisco, topei com uma placa sobre uma porta aberta que me deixou curioso:

M. LUZ, VIDENTE 
A VERDADE É UMA HISTÓRIA 
QUE VOCÊ TEM O DIREITO DE CONHECER

M. Luz: por que esse nome abreviado me soava tão familiar?

Como um ator ruim de filme B, respirei fundo, olhei pros lados, desviei de dois craqueiros que dormiam na calçada e entrei.

(Continua na próxima coluna.)

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