Influência dos filhos sobre Bolsonaro só é comparável ao elo de Getúlio e Alzira

Em maio de 1953, Getúlio Vargas (1882-1954) era alvo de duas CPIs e uma sucessão de manchetes duras da Tribuna da Imprensa, do jornalista Carlos Lacerda. Aos mais próximos, como a filha Alzira Vargas do Amaral Peixoto, o presidente parecia alheio à crise que se expandia.

Como se não bastasse a pressão no front político, o "patrão", como ela o chamava carinhosamente, ainda não tinha se recuperado de um tombo recente, no qual havia fraturado o úmero e o fêmur.

Como conta Lira Neto no terceiro volume da biografia "Getúlio", Alzira entrou no quarto do pai, no Palácio do Catete, no Rio, disposta a provocá-lo. "Patrão, o senhor quebrou a cabeça também? Ou ela ainda funciona?"

Entre a ironia e a petulância, a indagação contribuiu para Getúlio se reanimar e dar início a uma ampla reforma no governo federal.

Ao longo da história republicana do Brasil, a influência de Flávio, 37, Carlos, 36, e Eduardo, 34, sobre o pai presidente, Jair Bolsonaro (PSL), só é comparável em intensidade até este momento à de Alzira sobre Getúlio. A avaliação é de historiadores ouvidos pela Folha.

É certo que Mario Hermes tenha colaborado com o pai, Hermes da Fonseca, presidente de 1910 a 1914. Ernesto Geisel (1974 a 1979) recebeu da filha, Amália Lucy, algumas sugestões, especialmente na área da cultura. A história do poder no país registra outros casos semelhantes.

Mas o peso dessas relações não se aproxima do que houve mais de seis décadas atrás com Getúlio e Alzira e ocorre agora com Bolsonaro e seus três filhos mais velhos.

Na sexta (22), o vice Hamilton Mourão (PRTB) disse que os filhos do presidente "vão entender o tamanho da cadeira de cada um". Será?

Vereador do Rio de Janeiro, Carlos é dos três o que mais exerce influência sobre o pai. Foi sua crítica a Gustavo Bebianno, endossada por Jair, que conduziu à demissão do ministro da Secretaria-Geral. Carlos coordenou a comunicação do pai nas redes sociais durante a campanha.

Eleito deputado federal por São Paulo com a maior votação da história, Eduardo exibe força nas relações internacionais. Foi ele quem avalizou a indicação feita pelo escritor Olavo de Carvalho do chanceler Ernesto Araújo.

Senador pelo Rio, Flávio também é ouvido pelo pai. Por ora, no entanto, sua presença no núcleo decisório é reduzida por conta da investigação das movimentações financeiras suspeitas do seu ex-assessor Fabrício Queiroz.

"É pau a pau", afirma Heloisa Starling, historiadora e cientista política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). "Entre os filhos de presidente com essa presença tão constante [na vida política do pai], só Alzira se parece com o que vemos hoje. Mas os propósitos são diferentes."

Concordam com ela o historiador Boris Fausto, autor de livros como "Getúlio Vargas: o Poder e o Sorriso" (2006), e Lira Neto, o principal biógrafo do político de São Borja (RS).

Um ponto é a intensidade da influência dos filhos --nesse aspecto, o presente da família Bolsonaro se assemelha ao passado varguista. Outro bem diferente, ressaltam os especialistas, é a qualidade dessa influência. São os "propósitos" mencionados por Starling.

Boris Fausto faz referência ao Estado Novo, regime ditatorial iniciado após o golpe de Getúlio em 1937 e que perdurou até 1945.

"Alzira fez o possível para conter os excessos do pai durante o Estado Novo. Foi responsável por uma linha positiva de abrandamento", avalia. "No que se viu até agora, a presença dos filhos de Bolsonaro é incômoda. Creio que exista unanimidade de que os filhos perturbem o exercício da Presidência."

Segundo Starling, Getúlio teve com Alzira "uma interlocução política que não conseguiu com mais ninguém".

Ela era das raras pessoas dentro do governo que se sentiam à vontade para discordar dele. Não é à toa que o pai gostava de chamá-la de "topetudazinha".

Depois de se casar com Darcy em 1911, quando ainda era deputado estadual, Getúlio teve cinco filhos, nesta ordem: Lutero, Jandira, Alzira, Manuel Antônio (o Maneco) e Getúlio Filho. Nenhum deles foi tão próximo do pai quanto Alzira.

Perspicaz e atenta, ela começou a trabalhar com Getúlio antes de completar 18 anos. Organizava a papelada do presidente.

Em 1937, Alzira assumiu novas atribuições, agora como funcionária do Gabinete Civil da Presidência. Atuava como um filtro, selecionando quem e o quê chegariam ao "patrão" --na época, não havia lei que proibisse a contratação de parentes.

"Alzira era o repositório de todos os segredos da Presidência", afirma Lira Neto.

A filha consolidou autoridade e prestígio num episódio traumático. Na madrugada de 11 de maio, um comando integralista tentou invadir o Palácio Guanabara para matar Getúlio. Praticante de tiro ao alvo, Alzira manteve o revólver em punho e foi uma das responsáveis pela resistência. Tinha apenas 23 anos.

O episódio com os integralistas e, principalmente, as funções de maior responsabilidade no gabinete a levaram a escrever em seu diário: "Posso considerar o ano de 1938 o ano de minha afirmação como Gente, com G maiúsculo. Fiquei importantíssima de repente".

O comentário aparece em "Getúlio Vargas, Meu Pai: Memórias de Alzira Vargas do Amaral Peixoto" (ed. Objetiva), livro reeditado em 2017.

Depois de ser deposto, em 1945, Getúlio passou a viver na sua fazenda em São Borja. Casada com o oficial da Marinha Ernani do Amaral Peixoto, interventor do Rio, Alzira continuou na capital.

Nos anos seguintes, eles trocaram correspondências intensamente. Alzira costumava se referir ao pai nas cartas como "querido Gê".

Ficou evidente nesse período o traquejo político dela, sempre atuando discretamente. Ajudou a apaziguar as tensões nos diretórios estaduais do PTB, partido fundado pelo pai, e a afastar a UDN do governo federal, minando o poder do então presidente Eurico Gaspar Dutra, rival de Getúlio àquela altura.

"Foi Alzira quem fez toda a costura política para a volta do pai à Presidência", diz Lira Neto. "Agia como algodão entre cristais, não causava ruído."

Com a posse de Getúlio em janeiro de 1951, depois de eleito com quase 50% dos votos, Alzira reassumiu o trabalho como assessora.

Conciliava as articulações políticas com discussões com o pai sobre os rumos para o país. Conforme mostram os diários de Alzira, eles falavam sobre transportes, siderurgia, relação do Brasil com os EUA, entre outros temas.

"Não aparecem nas declarações dos filhos do Bolsonaro projetos para o país. O que pensam sobre saúde pública? E desenvolvimento industrial? Vemos um projeto de poder, com estratégias para chegar ao poder e se manter nele", diz Heloisa Starling.

Na madrugada de 24 de agosto, Getúlio reuniu os ministros para discutir a situação das Forças Armadas. A insurreição de boa parte dos militares era um dos desdobramentos da crise provocada pelo atentado frustrado a Carlos Lacerda, crime que teve como mandante Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio.

Alzira não se conteve e entrou no salão dos despachos, onde acontecia a reunião.

Diante dos relatos de conflagração no Exército, na Marinha e na Aeronáutica, ela deixou mais uma vez a discrição de lado. Depois de dar um soco na mesa, disse ao ministro da Guerra, Euclides Zenóbio da Costa: "É uma conspiração de gabinetes e mais nada".

Interpelou ainda outros ministros em busca de uma saída para a sobrevivência do governo Vargas.

Desta vez, o ímpeto de Alzira não ajudou o pai. Horas depois, sozinho no quarto, Getúlio deu um tiro no coração.

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