Sócio da Gol cita repasses a Maia e a políticos de ao menos 4 partidos

O juiz Vallisney Oliveira, da 10ª Vara Federal em Brasília, homologou acordo de delação premiada assinado entre o empresário Henrique Constantino, sócio da companhia aérea Gol, e o Ministério Público Federal. Entre os citados estão o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o ex-deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ) e o ex-ministro Geddel Vieira Lima (MDB-BA).

Em um dos dez anexos da delação que tratam de fatos supostamente criminosos, Constantino relatou pagamentos de propina a operadores e políticos do MDB para obter recursos da Caixa Econômica Federal e do fundo de investimentos do FGTS, gerido pelo banco —informações relacionadas às operações Cui Bono e Sépsis, da Procuradoria no Distrito Federal.

Em outro anexo, de número 7, o delator falou de “benefício financeiro” a parlamentares ou ex-parlamentares por meio da Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas).

Os políticos mencionados nesse caso são Rodrigo Maia, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o ex-ministro Bruno Araújo (PSDB-PE), o ex-senador Romero Jucá (MDB-RR) e os ex-deputados Marco Maia (PT-RS), Vicente Cândido (PT-SP), Edinho Silva (PT-SP) e Otávio Leite (PSDB-RJ).

Os detalhes do suposto benefício financeiro para esses políticos estão sob sigilo.

Constantino foi denunciado à Justiça Federal em Brasília em outubro passado sob acusação de pagar R$ 7 milhões de propina em troca de financiamento de R$ 300 milhões para a Via Rondon Concessionária, do Grupo BR Vias, e de mais R$ 50 milhões para a Oeste Sul Empreendimentos Imobiliários S.A.

Junto com Constantino foram denunciados Cunha e Geddel, que hoje estão presos. O empresário disse ter feito repasses ilícitos por meio de contratos fictícios com empresas do operador Lúcio Funaro, que também é delator.

No acordo com o MPF, Constantino se comprometeu a pagar R$ 70,8 milhões à Caixa e ao FI-FGTS como reparação pelos danos causados. O valor equivale, segundo o juiz Oliveira, a dez vezes o dano confessado.

As informações prestadas por Constantino na delação premiada deverão ser usadas nesse processo e em outras linhas de investigação. Eventuais investigações sobre parlamentares com mandato deverão ser enviadas ao Supremo Tribunal Federal, que tem a atribuição de investigar e processar políticos detentores de foro especial.

O juiz da 10ª Vara autorizou que as informações e os elementos de corroboração apresentados por Constantino sejam compartilhados com os investigadores das operações Sépsis, Cui Bono, Greenfield e Patmos —a última mirou o ex-presidente Michel Temer (MDB), que está preso preventivamente em São Paulo.

OUTRO LADO

Maia, que está em Nova York nesta segunda-feira (13), afirmou que não conhece nem nunca esteve com o delator. “[Constantino] Nunca me pagou nada, isso é mentira dele, não tem como provar e vai ser mais um inquérito arquivado na Justiça brasileira”, disse o presidente da Câmara.

“Está mentindo. Nunca tive relação com ele, nunca tive nenhum benefício deles [donos da Gol]”, afirmou, acrescentando que vai colaborar com os investigadores “com toda a tranquilidade”.

Em nota, a Abear afirma que desconhece os fatos e o teor da delação e que, "caso a entidade seja procurada pela Justiça para esclarecimentos, estará à disposição".

A reportagem não conseguiu localizar, na noite desta segunda-feira, os advogados dos demais políticos citados pelo delator.

Colaborou Marina Dias, de Nova York

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