Para Deschamps, título como técnico seria a 'página mais bonita'

Cada vez que Didier Deschamps ouvia a menção ao título mundial de 1998, fazia uma indisfarçável careta. E este foi o assunto que dominou sua entrevista após a vitória que colocou a França na final da Copa pela terceira vez nos últimos 20 anos.

A primeira foi quando venceu por 3 a 0 o Brasil, em Paris, e conquistou o torneio para seu país pela primeira vez.

Deschamps foi o capitão daquela equipe. Nesta terça (10), levou sua seleção à final da Copa da Rússia com a vitória por 1 a 0 sobre a Bélgica.

No domingo, enfrenta Inglaterra ou Croácia, que se enfrentam nesta quarta (11), em Moscou. Caso ganhe, ele será o terceiro a ter sido campeão mundial como jogador e técnico. Os outros dois foram o alemão Franz Beckenbauer e o brasileiro Zagallo. Este é outro assunto que o treinador francês não quer abordar.

Deschamps não usa esta palavra, mas acredita ser injusto com seus jogadores compará-los com a geração que ganhou em 1998. Tenta protegê-los disso porque, para os 23 atletas e para o próprio técnico, ser campeão na Rússia vai representar muito.

Mais até do que a conquista de duas décadas atrás.

“Você tem de viver o seu tempo e não mencionar a minha história. Eles [os jogadores] sabem disso. Alguns deles sequer eram nascidos quando ganhamos o título. Não posso falar com eles sobre algo que aconteceu 20 anos atrás. Eu estou aqui para escrever uma página nova. A página mais bonita. Não posso olhar para trás”, disse o treinador.

Foi o momento em que Deschamps alterou o seu tom de voz monocórdio, constante durante todo o contato com os jornalistas. Foi quando também deixou um pouco de emoção aparecer. A mesma de quando entrou em campo para comemorar com seus jogadores e recebeu um abraço de urso de Paul Pogba, meia que definiu como um “monstro, capaz de estar em todos os lugares do gramado”.

Deschamps é como técnico uma versão mais velha do que foi dentro de campo. Faz o trabalho sujo para os outros aparecerem. Antes era o volante que só sabia marcar, destruir e passar a bola para quem estivesse mais perto.

No cargo de técnico, toma a linha de frente, protege seus atletas das críticas e não quer que falem demais. Lembrou que nesta terça completaram 49 dias que se reuniram para começar os treinos para a Copa. Disse não imaginar que pudessem chegar à final, apesar de um consenso de que a França era uma das favoritas.

O desejo dele, na verdade, é que seus atletas não tenham a pressão de carregar a nação francesa nos ombros. Deu certo em 1998 (por mais que ele não goste de mencionar o assunto), mas na última vez, deu errado. Deschamps era o técnico quando a equipe chegou à final da Eurocopa, em casa, contra Portugal. Era a favorita, mas perdeu por 1 a 0.

De forma esperta, usa a juventude como arma. Como o grupo francês pode ter qualquer obrigação de vencer a Copa se 14 jogadores do elenco jamais disputaram a competição? A França tem o segundo elenco mais jovem do torneio, com média de idade de 26 anos. Fica à frente apenas da Nigéria, que caiu na fase de grupos (25,9).

Ele viu as imagens da avenida des Champs-Élysées, em Paris, tomada de torcedores comemorando a classificação. Foram mostradas a Deschamps por repórteres de TV na saída do campo. Trouxe memórias. Quando a seleção venceu há 20 anos, milhares foram ao mesmo local celebrar o primeiro título mundial da seleção. “Eu vi [as imagens] porque estive em duas diferentes entrevistas. Claro que traz boas lembranças. Mas o jogo mais importante de todos será no domingo. É um privilégio chegar à final da Copa. É um privilégio dar esta alegria para as pessoas. Vamos tentar dar-lhes ainda mais.”

Deschamps pouco se fez notar à beira do campo durante os 90 minutos. Enquanto Roberto Martínez, o espanhol técnico da Bélgica, se agitava a cada falta marcada, reclamava das não assinaladas e gesticulava para seus jogadores, o ex-volante que também perdeu uma final de Liga dos Campeões com o Monaco (mas a ganhou como jogador com o Olympique de Marselha), era a imagem da calma. Não chega a ser estranho, então, que duas vezes tenha mencionado a palavra “destino”. Como se fosse o seu chegar a outra decisão com a seleção francesa.

Quem sabe ganhar o título também. Mas até para falar sobre isso, ele não resiste a fazer uma careta. Porque se vê obrigado a fazer o que detesta, mas tem sido uma das suas funções desde que desembarcou na Rússia: comentar comparações com 1998.

“Todo mundo tem destino. Sempre tentamos achar comparações, certo ou errado. Meu trabalho não é o mesmo [do que era quando jogador]. Ao ver a face dos meus jogadores, fico muito feliz por eles. Claro que fico feliz por mim mesmo, pela minha família. É um orgulho enorme ter chegado a esta final. Nós queremos ser campeões do mundo. Só que ainda não somos.”

Aplaudido por jornalistas franceses, o finalista do Mundial da Rússia se levantou e foi embora.

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