Miuccia Prada desenha o estilo do futuro em desfile histórico na semana de Milão

Tente contar quantos tênis, moletons e calças para academia com acabamento moderninho você viu em vitrines e posts do Instagram nos últimos anos.

Os desfiles de alta-costura, em junho, já anunciavam a mudança desse pensamento na casta pensante da moda —a que influi diretamente no que outras grifes, consequentemente o varejo e você, devem desejar—, mas foi Miuccia Prada, mais uma vez, quem mudou tudo ao desenhar o estilo do futuro em desfile histórico na semana de Milão.

A grife enterrou o discurso de modinhas para selfie, que salta da tela do smartphone e as grifes que copiam umas às outras ainda tomam como verdade absoluta de estilo, requentando um ideal de conforto prático dos anos 1990 em embalagem dita cool. 

A elegância da segunda metade do século 20 reprojetada para um estilo de vida prático, liberto da rigidez das formas e dos comprimentos imobilizantes, é a grande sacada da virada de comportamento proposta pela Prada e por grandes estilistas que tiveram suas ideias incompreendidas nos últimos quatro meses.

Para ler esse desfile da quinta-feira (20), permita-me a protelação, é preciso olhar com lupa outros quatro, prelúdios da quebra que logo chegará às ruas. Em ordem de aparição, está a alta-costura da Christian Dior de Maria Grazia Chiuri. 

Chamada por críticos de visão periférica de simplória, empobrecida de ideias, a coleção desfilada em Paris mostrava uma moda limpa, vários vestidos plissados na barra e com a parte de cima construída como xale, num sem fim de seda, cetim e tule. Tudo clássico demais para a esquizofrenia de ideias que a moda se acostumou a ver.

Depois, já na semana de Nova York, no início deste mês, a Calvin Klein de Raf Simons surgiu com os mesmos plissados, cortes tradicionais e alfaiataria combinada a peças tão simples quanto uma calça feita em borracha para surfista. 'Só isso?', questionou a turma fashionista.

Marc Jacobs, evocando o glamour perdido nas festas do passado, mostrou a saudade da costura viva em formas, cores e proporções. Ele pintou um mundo de fantasia rebuscada, um livro de referências distante da cacofonia das redes sociais.

Um passo adiante e a Burberry, gerida pelo criador da estética “street” no luxo, o italiano Riccardo Tisci, trouxe na segunda-feira (17), em Londres, elegantes trench coats, roupas de festa minimalistas e cinquenta tons de bege dispostos por uma extensa coleção de… clássicos. Ele não caiu no marasmo da cópia do século 20, escrevendo nova roupagem para peças simples que não se encontra mais.

Chega-se à enorme passarela da Fundação Prada, numa região afastada do caos do centro milanês entupido de vitrines repletas de, pode-se adivinhar, tênis, moletons e jaquetas pichadas.

Uma música insossa toca enquanto os celulares levantados se posicionam para a selfie perfeita da primeira fila de blogueiros montadíssimos. Segundos depois, o eletrônico robótico ensurdecedor de “Opression”, do produtor francês Terence Fixmer, ecoou para dar início ao contraste entre o barulho e a calmaria na passarela que serve de resposta ao ruído.

Prada, pouco a pouco, descortina propostas de bermuda de cetim e blusas do mesmo tecido clássico, ora com o colo coberto pela transparência da seda, ora fechadas até um pescoço arrematado por laços, um tipo de romance em falta na confusão do noticiário.

A camiseta, o item básico no guarda-roupa urbano, alonga-se para virar vestido curto em “A”, fácil de usar e ricamente adornado com paetês em formato de flores. A silhueta aberta, típica da moda dos 1960, é ponto nevrálgico do discurso de praticidade embalada em detalhe luxuosos.

Crítica ácida das burguesias, Miuccia Prada olhou para a França sessentista e suas golas de alfaiataria, mas espirrou tinta em efeito tie-dye no romantismo de fachada dessa elite.

Bolsas com tachas, agressivas, servem de contrapeso a essa nova elegância do século 21, cujo look é finalizado com sapatos de salto irregular, com a pinta futurista que se espera de uma moda fresca que não reproduz um passado fidedigno.

É nesse ponto que a coleção explode como signo de modernidade, porque pode recuperar os 1960, mas lhe tira a doçura demasiada, pode rememorar o esportivo dos 2000, mas lhe dá novos decotes, e até a minissaia, mas a envelopa em acabamento assimétrico.

A coleção transmite uma elegância reconhecível, mas a imagem não soa datada porque nunca foi feita. Um vestidinho combinado com tiara-boina pode ser completamente novo se cortado transversalmente, construído metade em couro, metade em malha fina, como uma Rita Pavone dos novos tempos. Não é street, não é clássico, não é futurista. É algo ainda sem nome.

Prada esquece o ruído das redes sociais, da roupa feita para causar, e lembra que a moda é uma escolha individual feita para agradar ao íntimo, não à audiência. Afinal, “vocês querem uma moda de hashtags”, pergunta MIuccia Prada à imprensa na coletiva pré-desfile. “Não podemos simplificar as coisas.”


O jornalista se hospeda a convite da Fila

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