Mesmo sem torcida, clássico na Argentina põe autoridades em alerta

A fase de quartas de final da Copa Argentina terá frente a frente, nesta quinta-feira (1º), os protagonistas de um dos mais ferrenhos clássicos do país: Rosario Central x Newell's Old Boys. Mas os torcedores dessas equipes só poderão assistir ao jogo pela TV.

Por determinação da organização do torneio, a partida, que será jogada em Sarandí, na Grande Buenos Aires, não terá a presença de nenhuma das duas torcidas.

Na Copa Argentina, todos os duelos são disputados em campo neutro, sem a distinção de mandantes ou visitantes, e contam com torcedores dos dois times envolvidos.

Para o clássico de Rosario, porém, optou-se por vetar o público, apesar da vontade dos clubes de jogarem na província de Santa Fe, onde fica a cidade, e com o estádio cheio.

"A província de Santa Fe não deu garantias de segurança para que se jogasse essa partida. E por esse motivo pediram para que nós mudássemos o jogo para a província de Buenos Aires. Não somos nós que decidimos, é a Copa Argentina", diz à Folha Juan Manuel Lugones, secretário executivo da Aprevide (Agência de Prevenção da Violência no Esporte), órgão responsável pela segurança de eventos esportivos na província de Buenos Aires.

Apesar de não ter torcedores nas arquibancadas, a Aprevide e os organizadores da competição estão apreensivos com a possibilidade de tumultos do lado de fora do estádio e também no caminho de Rosario a Sarandí, cerca de 300 km distantes uma da outra.

Para isso, será montado um operativo com aproximadamente 100 policiais, que atuarão principalmente nas imediações do estádio do Arsenal (ARG). Dentro dele, estarão autorizados 40 dirigentes de cada clube e um número limitado de jornalistas.

"Sabemos que torcedores de Rosario irão à cidade para dar seu apoio aos jogadores. Não somente para fazer os bandeiraços, mas também que se aproximarão do estádio. Para nós esse é um problema, porque eles podem se encontrar. Por isso o operativo", afirma Lugones.

O futebol argentino não conta com torcida visitante em jogos da liga desde 2013, quando um torcedor do Lanús morreu em confronto com a polícia antes de um jogo contra o Estudiantes, vítima de um tiro de bala de borracha.

Desde então, mesmo partidas por torneios internacionais seguem a medida de segurança do futebol local, como as oitavas de final da Copa Libertadores de 2015, entre Boca Juniors e River Plate.

A partir de 2016 a decisão foi copiada pelo Ministério Público em São Paulo para os clássicos da capital paulista.

Rosario Central e Newell's Old Boys fazem um dos clássicos mais quentes da Argentina. Para alguns, rivaliza até com o Superclássico entre Boca Juniors e River Plate.

O histórico de disputa pela soberania futebolística da cidade de Rosario remonta ao início do século passado e está presente até na origem dos apelidos de cada clube. Segundo a lenda, o Newell's ganhou o apelido de "leproso" por ter aceitado o convite para um jogo beneficente que arrecadaria fundos a uma instituição de tratamento da hanseníase.

De acordo com a história, o Central recusou o convite para jogar esse amistoso, o que rendeu ao clube e a seus torcedores a alcunha de "canalla" (canalha, em espanhol). Hoje, os próprios torcedores não reconhecem os apelidos de forma pejorativa e já os incorporaram às culturas de cada clube.

Nas últimas décadas, o acirramento entre as torcidas ganhou contornos policiais. Influentes não só nos clubes, os chefes das respectivas barras bravas participam também da rede de narcotráfico da região. Até por isso a preocupação com a segurança para os clássicos entre eles, mesmo que longe de Santa Fe, se justifica.

Nem mesmo o apelo de ídolos das duas equipes foi suficiente para sensibilizar as autoridades argentinas quanto à presença de suas torcidas.

O goleiro Nahuel Guzmán, ex-Newell's, e o meia Ángel Di María, ex-Central, gravaram um vídeo em que recitam um poema sobre o sentimento dos torcedores mais fanáticos, pedindo para que o clássico tivesse público.

"Que [a cidade de] Rosario assista ao clássico como uma mulher e um homem apaixonados", pediu Di María, cujo desejo, e de milhares de outros torcedores, não será atendido.

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