Jornalistas lembram pioneirismo de Cláudio Weber Abramo na defesa da transparência

A inteligência excepcional e o raciocínio cartesiano deram a Cláudio Weber Abramo a fama de ser teimoso — essa foi uma das características do jornalista destacada pelos colegas de profissão que o homenagearam nesta segunda-feira (13), em seu velório.

"Ele te provava que estava certo e não arredava pé", recorda-se José Roberto de Toledo, editor do site da revista Piauí e parceiro de Abramo em projetos de transparência e jornalismo de dados como o site Dados.org. "Deixava muita gente com medo, mas era uma pessoa muito doce e incrivelmente terna."

Formado em matemática pela USP, mestre em lógica e filosofia da ciência pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Abramo cofundou em 2000 e comandou por quase 15 anos a Transparência Brasil. Foi editor de economia da Folha (1987) e secretário-executivo de Redação da Gazeta Mercantil (1987-88).

"Cláudio era uma figura muito querida da minha vida e do escritório. Um mau humor doce", registrou no livro de condolências o amigo Belisário dos Santos Júnior, advogado e ex-secretário estadual de Justiça de São Paulo.

Para Toledo, o legado de Abramo se divide em duas frentes: o estabelecimento do jornalismo de dados no Brasil, antes mesmo que a prática recebesse esse nome, e sua atuação para a aprovação da Lei de Acesso à Informação.

"Seja a base de dados de financiamento de campanhas, seja a base que ele mesmo desenvolveu, como o projeto Excelências [um banco de dados sobre o histórico da vida pública de parlamentares]. Ele foi tão pioneiro que nunca ganhou nem o crédito merecido", diz o editor da Piauí.

Paulo Zocchi, presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, afirma que Abramo uniu o trabalho jornalístico de investigação à preocupação com a defesa da ética na profissão. 

Helio  Gurovitz, colunista da Época, do G1 e do jornal O Estado de S. Paulo, tem formação em ciências exatas, assim como Cláudio Weber Abramo. Ele conta que foi o amigo quem o influenciou a seguir carreira como jornalista.

"Cláudio batalhou pelo acesso à informação sem viés ou interesse. Jamais cheguei a conhecer as posições partidárias dele", diz Gurovitz. 

O vereador paulistano Eduardo Suplicy (PT), candidato ao Senado, conheceu Cláudio Weber Abramo em razão de sua amizade com seu pai, Cláudio Abramo —um dos mais importantes jornalistas de sua geração, que dirigiu a Folha e o Estado de S. Paulo.

"Ele foi um dos que mais estimulou todos nós da vida pública a aplicar o princípio de que é preciso colocar em prática a transparência na administração", afirma Suplicy. "Ele sempre defendeu a transparência em tempo real como uma das mais eficientes maneiras de prevenir irregularidades."

Abramo morreu em São Paulo na noite de domingo (12), aos 72 anos, em decorrência de complicações do tratamento de um câncer no intestino. Seu corpo seria cremado na tarde desta segunda, no cemitério da Vila Alpina.

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