Em impasse sobre Previdência, Congresso ameaça derrubar outros projetos de Bolsonaro

Com gestos modestos, o governo tenta se reaproximar do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), principal expoente da reforma da Previdência no Congresso.

Sem sucesso, interlocutores do presidente Jair Bolsonaro procuraram Maia para impedir que ele se afaste da articulação política em favor da proposta, considerada impopular.

O parlamentar quer um aceno claro do governo de que os ataques a ele e à Câmara irão cessar. O Planalto aposta em um eventual encontro de Maia com Bolsonaro neste domingo (24) ou na segunda (25) para apaziguar os ânimos.

Mas, segundo aliados do presidente da Câmara, a relação do Congresso e o governo está bastante desgastada. Deputados influentes articulam a derrubada de decretos e medidas provisórias editados por Bolsonaro.

O governo já foi avisado da movimentação. O decreto que dispensa vistos para turistas dos Estados Unidos e outros países está na mira. O texto da MP que muda regras para contribuição sindical deve ser alterado ou derrubado.

Esses seriam novos recados para o presidente de que o governo precisa dialogar com o Congresso e interromper a série de ataques aos políticos.

Maia disse à colunista da Folha Mônica Bergamo que a responsabilidade de buscar votos pró-reforma é de Bolsonaro.

“O papel de articulação do Executivo com o Parlamento nunca foi e nunca será do presidente da Câmara”, afirmou. “Quando ele [Bolsonaro] tiver maioria e achar que é hora de votar a reforma, me avisa e eu pauto. E digo com quantos votos posso colaborar.”

Há mal-estar do Congresso com a visão crítica de Bolsonaro à política, à qual sempre se refere com desconfiança.

Nesta sexta (22), um dia após falar ao ministro Paulo Guedes (Economia) que assumiria apenas papel institucional em relação à reforma da Previdência, Maia se reuniu com a líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP).

Depois do encontro, ele disse a aliados que não pensa em rever a decisão. Hasselmann tem interlocução com o presidente da Casa, mas ele quer um aceno institucional do governo.

No entanto, Maia não tem boa relação com o ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil), que também tenta conter o levante contra o Planalto.

Apesar da operação para controlar Maia, a líder do governo reconhece que a relação não foi retomada. “Estamos pacificando esse momento.”

O deputado e aliados afirmam que o governo, mais que tudo, precisa respeitar a Câmara, principalmente diante de ataques nas redes sociais inflados por manifestações do vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente.

Mas declarações de Jair Bolsonaro também continuam incomodando os deputados. Em Santiago, no Chile, o presidente comparou a relação com Maia a um namoro.

“Só conversando. Você nunca teve uma namorada? E quando ela quis ir embora, o que você fez para ela voltar? Não conversou? Estou à disposição para conversar com o Rodrigo Maia, sem problema.”

À noite, em entrevista à TV Globo, o parlamentar respondeu. “Eu não preciso almoçar, não preciso de café e não preciso voltar a namorar. Preciso que o presidente assuma de forma definitiva seu papel institucional”, disse. “Bolsonaro precisa ter mais tempo para cuidar da Previdência e menos tempo cuidando do Twitter.”

Numa tentativa de apaziguar os ânimos, Onyx afirmou à Folha que o governo vai respeitar e valorizar o Congresso na discussão da reforma.

“O caminho do governo é primeiro muito diálogo, paciência e respeito ao Parlamento, porque o Parlamento tem um tempo próprio”, disse.

Onyx almoçou nesta sexta com o deputado Felipe Francischini (PSL-PR), presidente da CCJ (Comissão da Constituição e Justiça), por onde a reforma começará a tramitar.

Incomodou o dirigente da Câmara ninguém do governo ter saído publicamente em sua defesa. Embora um dos filhos do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), e Joice Hasselmann tenham dado declarações favoráveis a Maia, a aliados ele disse que nenhum dos dois é governo.

A equipe econômica vê ainda no discurso de apoiadores de Bolsonaro e da Lava Jato, que tem como expoente no governo o ministro Sergio Moro (Justiça), um empecilho à reforma.

Além de operações serem deflagradas em datas que coincidem com a tramitação do projeto, irrita esse grupo repetir críticas à “velha política”. 

Integrantes do governo dizem que a defesa ao combate à corrupção não pode coincidir com a criminalização da classe política como um todo.

Guedes, na semana passada, quando se reuniu com líderes partidários, conseguiu convencer até sindicalistas a reduzir atos contra a reforma. Mas os ataques à Câmara e a Maia representaram, para deputados, uma quebra de acordo.

A forma como aliados de Bolsonaro e o próprio presidente se manifestaram sobre a prisão de Michel Temer gerou insatisfação generalizada em partidos como PP, PRB e DEM. Deputados dessas siglas ameaçam boicotar a audiência de Guedes na CCJ, na terça (26).

O ministro da Economia, nesta sexta, tentou passar uma “mensagem de tranquilidade” em relação ao tema.

Em cerimônia no Rio, ele minimizou impactos de sustos sobre o cenário político. “De repente vamos levar um susto porque o deputado tal deu um tiro em não sei quem, porque o filho de não sei quem pegou não sei quem lá. Esquece, tem um tema maior: o Brasil está cada vez mais robusto.”

O ministro voltou a afirmar que confia na aprovação da reforma.

Colaborou Nicola Pamplona, do Rio

Talita Fernandes , Angela Boldrini , Thiago Resende , Mônica Bergamo e Sylvia Colombo

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