Derrotado no PR, Requião diz que eleição foi despolitizada e defende voto em Haddad

Derrotado nas urnas depois de passar quase 30 anos seguidos em cargos eletivos, o senador Roberto Requião (MDB), ex-governador do Paraná e um dos principais opositores do governo de Michel Temer no Congresso, afirmou em entrevista à Folha que essa foi uma eleição despolitizada, do "bem contra o mal" e contaminada pela desesperança.

Para ele, que ficou em terceiro lugar na disputa para o Senado, com 15% dos votos, sua derrota se deve a erros nas pesquisas e a uma tentativa de colá-lo ao PT —que ele critica, ao mesmo tempo em que defende voto no presidenciável Fernando Haddad.

Requião diz que o voto em Jair Bolsonaro (PSL) foi motivado pela rejeição aos políticos tradicionais, provocada em parte pela Operação Lava Jato, mas o chama de "troglodita" e “preconceituoso”, além de um risco à democracia.

O senador de 77 anos também diz haver uma “guerra híbrida” do capital estrangeiro, através dos meios de comunicação e das redes sociais, contra o estado-nação, que acabou prejudicando candidatos como ele, e relativiza os benefícios da renovação do Congresso: “Depende de quem entrou”.


 
Houve uma renovação recorde no Congresso nestas eleições. Isso é bom para a política brasileira? Eu acho que é. Mas depende de quem entrou. Se tiram um ruim para pôr um péssimo, não é bom. Desapareceram os partidos políticos e surgiram candidatos alternativos. Aqui no Paraná, por exemplo, esse Oriovisto [Guimarães, eleito senador pelo Podemos], dono do grupo educacional Positivo. Não é meu inimigo, não. Mas afastado de tudo, de política, riquíssimo. É consequência da desmoralização da atividade política no país.

A que o sr. atribui sua derrota nas urnas? Todos os institutos me davam vitória com conforto. Como você pode explicar que o Ibope me dê 38% de intenção de voto pela manhã, e eu faça 15% dos votos à noite? Não me pergunte por quê; eu não sei. Foi uma onda, um movimento. E impulsionado por uma guerra híbrida, fundamentalmente pelo WhatsApp. Não só na minha campanha, mas de uma forma geral. Foi uma eleição despolitizada, uma eleição moral, do bem contra o mal. Ficou a imagem de que todo político é ladrão.

O sr. não considera que pode ter havido uma reprovação à sua atuação política? Sua votação caiu de quase 2,7 milhões de votos para 1,5 milhão, entre 2010 e 2018. Foi a ligação com o PT. "Requião é o PT". Eu fiz oposição ao PT no Senado. Eu estou do lado do Brasil. Nunca engoli a política econômica do [Henrique] Meirelles e do [Joaquim] Levy [ex-ministros da Fazenda dos governos petistas].

Mas conseguiram fazer essa vinculação. Eu tive boa aprovação no governo do estado. Em todas as pesquisas de opinião, eu era o senador, proporcionalmente, que seria o mais votado do país. Eu acho que foi a vinculação ao PT e o voto útil. O Requião está eleito: votem nos outros, para tirar o [ex-governador] Beto Richa [que estava em segundo lugar nas pesquisas, e acabou em sexto]. 

O sr. foi contra o impeachment de Dilma Rousseff, criticou a condenação do ex-presidente Lula. Isso não lhe custou votos? Claro que custou votos. Mas não me arrependo. A minha posição é essa. Eu faria de novo tudo o que eu fiz nessa campanha, ganhando ou perdendo. É evidente que os marqueteiros me diziam: abandone isso, abandone o PT. Mas então o que eu estou fazendo na política? Não é um brinquedo, um jogo de tabuleiro. Nós estamos tentando formar opinião, construir um país.

O sr. acha que a Operação Lava Jato teve influência no cenário eleitoral? Teve. Eu saudei o início da Lava Jato. Mas o que eu acho é que a busca passou a ser seletiva. Eles foram capturados. Não acho que o Sergio Moro seja agente da CIA. Mas ele se deslumbrou com os Estados Unidos. Passou a ser convidado para palestras em universidades americanas, botavam lá milhares de alunos... Ele foi capturado pela vaidade. Da mesma forma que algumas lideranças do PT foram capturadas pela vaidade e se colocaram numa posição completamente contrária às posições iniciais do partido.

Mas a Lava Jato não é só o Sergio Moro. Há dezenas de policiais, procuradores, servidores concursados na investigação. O [Deltan] Dallagnol [procurador da Lava Jato] é um fundamentalista. Essa história da corrupção, sem uma visão holística da sociedade, é uma loucura. A Lava Jato abriu a caixa-preta da corrupção no Brasil, mas depois passou a ser dirigida, no sentido de dar uma cobertura para o liberalismo econômico de interesse geopolítico dos EUA e dos países mais desenvolvidos. 

O sr. diria que ela foi instrumentalizada? Foi instrumentalizada, sim. Com o apoio da imprensa, com a captura da vaidade, com as benesses e os elogios feitos aos seus membros. Claro que a Lava Jato é seletiva. Pegaram o [Eduardo] Cunha [do PMDB]. Mas deram cobertura à visão liberal, ao fim do estado-nação. Desmoralizou a classe política, desmoralizou a Petrobras, deu cobertura à tentativa de venda da Eletrobras. O combate à corrupção deve ser contínuo e é necessário. Ladrão tem que ir para a cadeia e político tem que ser investigado. Mas é evidente que a Lava Jato deu cobertura a isso.

O brasileiro identificou a corrupção como o principal problema do país, segundo o Datafolha. O sr. concorda? Esta é a narrativa da mídia. Do teu jornal, da Globo. É a consequência do monopólio da comunicação. É uma narrativa: o Brasil não precisa ser nação, mas sim acabar com a corrupção. E aí se entrega o patrimônio nacional. É uma guerra híbrida: uma extensão da grande guerra pelo domínio do petróleo, do subsolo, mas agora por outros meios. 

O que o sr. quer dizer com guerra híbrida? É a guerra que utiliza meios de comunicação. É o domínio da imprensa, da televisão, da internet. Veja o meu Twitter: tinha a adesão de 4.000 a 5.000 pessoas por semana. Entrou no processo eleitoral, caiu para 200. Por quê? Algoritmo, né? É uma guerra do capital financeiro internacional, da globalização, contra a visão nacional. 

Isso não soa como uma teoria da conspiração? Isso não é de domínio público ainda. Mas é algo que vai longe. Financiar candidatos de direita, entreguistas, que não acreditam no país, por exemplo. É uma forma. 

O sr. falou em desmoralização da atividade política. Quais são os efeitos disso? Eu me preocupo. O Bolsonaro, o que ele é? Fascista? Não. É mais nazista, preconceituoso. É um sujeito primário, um troglodita. O programa do PT de hoje [que associa a candidatura de Bolsonaro à tortura no regime militar] está bom. É o melhor que fizeram. O Bolsonaro é isso. Ele era absolutamente insignificante no Congresso.

Ele só aparecia brigando com uma deputada aqui, uma senadora ali. Uma coisa pobre, medíocre, pequena. Briga de lavadeira. 

O Bolsonaro não tem voto: o que tem voto é o ‘contra tudo isso que está aí’. O que tem voto é a desesperança. Da mesma forma como o Hitler subiu na Alemanha. Ninguém acredita em mais nada. É uma onda. Mas eu não atribuo tudo isso ao Bolsonaro. Eu atribuo isso ao desencanto com a política fabricado pela narrativa da imprensa, e pela culpa de muita gente. É claro que esse pessoal se perdeu na corrupção, no aparelhamento do Estado. 

Nesse caso, os políticos não estão pagando o preço pelos seus próprios erros? A classe política está pagando. Mas quem é que está vindo no lugar? Bolsonaro? Oriovisto? Qual é a opinião sobre o Brasil, sobre a economia, sobre os direitos sociais que um desses caras deu durante sua vida?
 
Se os brasileiros estão votando nesses candidatos, não é por que acreditam no que eles pregam ou representam? Não. É o bem contra o mal. É o [candidato] que vai combater a corrupção. Não é o ideário. 

Por que o sr. apoia Fernando Haddad? Não sou um petista fanático. Mas não sou idiota. Eu estou apoiando o Brasil com o Fernando Haddad. A proposta do PT não é meu ideal nacional-desenvolvimentista. O Haddad é um uspiano, trabalha no Insper. Agora, é um bom sujeito. É um cara sério. Não é votar no Haddad: hoje, é votar contra o autoritarismo.

O Bolsonaro hoje representa um risco à democracia? Sem sombra de dúvidas. O Bolsonaro é um risco à sua vizinhança, não só à democracia. 
 

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