Alvos de corte, universidades federais deram salto de produção em 10 anos

Em países sérios, dados do ensino superior relacionados ao desempenho acadêmico das universidades, impacto social, sucesso dos egressos e outros indicadores são usados para orientar políticas públicas. Não é o que acontece no Brasil.

Por aqui, três universidades federais (UnB, UFBA e UFF) de excelência podem ter cortes de orçamentos porque, de acordo com o ministro da Educação Abraham Weintraub, estariam fazendo “balbúrdia” no lugar de melhorar seu desempenho acadêmico.

A afirmação está equivocada. As federais de Brasília, da Bahia e Fluminense estão entre as 20 melhores universidades brasileiras no RUF - Ranking Universitário Folha desde a sua primeira edição (de 2012). No RUF 2018, a UnB figura em 9º lugar nacionalmente, a UFBA em 14º e a UFF em 16º (veja quadro abaixo). Todas as 196 universidades públicas e privadas brasileiras foram classificadas na listagem.

O RUF olha para um conjunto de dados públicos e oficiais ligados à atividade universitária como qualidade do ensino, excelência acadêmica, inovação, inserção internacional e avaliação do mercado de trabalho.

Especificamente sobre desempenho acadêmico, ao contrário do que afirma o ministro, as três universidades estão entre as dez brasileiras que mais aumentaram sua produção científica na última década (2008-2017), de acordo com a base internacional Web of Science, que é usada nos cálculos do RUF.

A UnB lidera o trio com um crescimento de 109% no período analisado. Isso significa que a universidade mais do que dobrou sua publicação de novos estudos científicos na última década. O mesmo acontece com a UFBA, que aumentou sua produção científica em 102% na mesma fase. Na UFF, o crescimento da produção de ciência foi de 84,3%.

Para se ter uma ideia, a USP, que é um gigante nacional em produção de ciência, por isso cresce mais lentamente, aumentou sua produção 44,3% no período. A média nacional de crescimento da produção científica foi de 65%.

Em média, portanto, os cientistas brasileiros estão produzindo cada vez mais, mas especificamente as três federais criticadas pelo governo estão produzindo mais ainda.  

UnB, UFBA e UFF são universidades com mais de 50 anos. São consideradas antigas para os padrões do nosso ensino superior brasileiro, que é bastante jovem, e com grande potencial de influenciar academicamente as escolas mais recentes.

Também são universidades “plenas” porque contam com programas de pós-graduação em todas as áreas do conhecimento (das 63 universidades federais ativas, somente 26 podem ser consideradas plenas). Estão, ainda, entre as 20 universidades do país que mais formam doutores em números absolutos.

É como se, com base em sua afirmação, o governo mostrasse que desconhece por completo a atuação de algumas das universidades mais sólidas e parrudas do país.

O ministro da Educação disse, ainda, que a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) também pode estar no bolo das instituições que terão corte de recursos “por balbúrdia”.

Essa universidade encravada no interior de Minas Gerais, especificamente, deu um salto de 268,9% em sua produção científica na década analisada e tem alguns dos trabalhos de maior impacto acadêmico do país.

Apenas um exemplo: a participação de cientistas da UFJF em um estudo sobre a comprovação da existência do bóson de Higgs (a partícula que dá massa ao Universo), publicado no renomado periódico acadêmico Physics Letters B, em 2012, está entre os quatro estudos com participação de brasileiros mais mencionados na última década. Recebeu, sozinho, 5.167 citações em trabalhos publicados nos anos seguintes. Balbúrdia?
 

Bolsonaro já havia dito, em abril, que universidades públicas têm pouca pesquisa (o que não é verdade, estamos entre os 15 maiores produtores de ciência do mundo). E tem defendido cortes em sociologia e filosofia —o que é inconstitucional, já que as decisões sobre cursos cabem apenas às universidades.
Ao anunciar decisões sobre ensino superior brasileiro com base em inverdades, o governo mostra que está equivocado ou mal-intencionado. As duas situações preocupam.

Sabine é pesquisadora-docente da Unicamp e coordenadora acadêmica do RUF; Estêvão é doutor em ciências pela Unifesp e estatístico responsável pelo RUF
 

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