Alain de Botton fala sobre o amor no aniversário da School of Life em São Paulo

A minha escola é sobre autoajuda, sim.” É dessa maneira, sem meias palavras, que o escritor Alain de Botton define sua School of Life (a escola da vida). A instituição, criada em Londres há dez anos, pretende oferecer às pessoas um lugar no qual possam pensar sobre as preocupações emocionais que as afligem.

“Para os altos escalões da cultura, autoajuda virou sinônimo de sentimentalismo e idiotice. Mas rejeitar a ideia que sustenta o gênero —que alguém precise urgentemente, em certos momentos, de consolo e educação emocional— parece um preconceito  muito perverso”, completa.

O suíço de 48 anos está em São Paulo para a comemoração dos cinco anos de sua School of Life na cidade. Ele fala nesta quarta (21) no Tuca sobre o amor, assunto que considera excessivamente idealizado e acerca do qual escreveu em seu último livro, “O Curso do Amor”, publicado pela Intrínseca no ano passado. 

A idealização romântica, segundo ele, vem da ideia de amor incondicional que os pais dedicam a seus filhos. 

“Nos melhores momentos da infância, um pai amoroso nos oferecia uma satisfação extraordinária, fazia com que nos sentíssemos completamente seguros. A experiência de ser tão querido deixou uma profunda impressão em nós e se fixou na nossa mente como o modelo ideal do que o amor deveria ser”, argumenta. 

E conclui: “A razão pela qual nós idealizamos o amor provavelmente vem da nossa infância —não dos filmes!”.

É esse modelo infantil que não cabe ser transferido para a vida adulta, e que, caso tente ser reproduzido, vai garantir uma decepção amorosa.

“A razão para isso é fundamental: nós éramos bebês e agora somos adultos —uma dicotomia com diversas ramificações importantes. Lamentamos não porque estejamos com a pessoa errada, mas porque fomos (tristemente) forçados a crescer”, conclui.

Para Botton, que já deu lições em seus 13 livros sobre assuntos tão diversos como a forma de interpretar notícias, o papel da arte em proporcionar soluções para nossos problemas e como pensar mais em sexo, há dois segredos para uma união longeva.

O primeiro é cultivar um tanto de pessimismo. “Alguns dos casamentos mais felizes foram entre pessoas que sabiam que, apesar de terem as melhores intenções, fariam um ao outro miseráveis em alguns momentos”, afirma.

O segundo é não esperar tanto assim de um matrimônio. “Um casamento força o parceiro a ocupar um número inviável de papéis na vida do outro. Ele tem que ser melhor amigo, parceiro sexual, chefe de casa, motorista, cozinheiro, contador, talvez pai, companheiro de viagem. Não é uma surpresa se todos inevitavelmente falharmos em alguns desses papéis”, pondera.

Ele acha que sites que promovem encontros românticos, como o Match.com, são na verdade “inimigos de relações longas”, por se basearem na ideia de que a pessoa certa para nós é alguém que compartilhe nossas preferências. 

“A compatibilidade de interesses pode ser verdadeira no curto prazo. Mas, em um período maior de tempo, a pessoa que melhor se adapta a nós é alguém que saiba negociar diferenças de gosto de forma inteligente e sábia.”

Botton também acredita que a evolução emocional de um ser humano é um processo contínuo ao longo da vida. “Nós podemos, no decorrer de duas noites sem dormir, ter feito um grande progresso em relação ao perdão próprio, ou resolvido um dos mistérios de uma relação amorosa.”

E acha que tais marcos deveriam ser comemorados da mesma forma com que se festeja a promoção de cargo dentro de uma empresa. “Ninguém vai nos dar um bolo para registrar esses momentos. Mas nutrimos uma esperança abafada de que algumas de nossas evoluções pudessem ser propriamente premiadas.”

Sobre o Amor
Teatro Tuca - r. Monte Alegre, 1.024, São Paulo. Qua. (21), das 19h às 22h30. Ingressos esgotados.

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