A seleção não é a cor da pátria

Steve Bloomfield, editor-assistente da excelente revista britânica Prospect, festeja o sucesso da Inglaterra na Copa do Mundo, mas não por ter superado a “maldição dos pênaltis". A seleção inglesa, que, na terça-feira (3), passou pela Colômbia nos pênaltis, havia sido eliminada nesse mesmo tipo de disputa em seis competições anteriores (três Mundiais e três Eurocopas).

A festa de Bloomfield é por um motivo que deveria despertar algum interesse também no Brasil: “Esta é a esquadra mais multirracial a representar o país em um grande torneio, com 11 jogadores de cor".

No Brasil, são 14, mas é uma característica já antiga da seleção e que corresponde, grosso modo, à proporção de brancos/não-brancos na população.

Logo, chama menos a atenção do que na Inglaterra predominantemente branca. Ainda mais que ninguém no Brasil vai buscar de que país africano vieram os antepassados de um Paulinho ou Neymar.

 

Na Inglaterra, como ressalta Bloomfield, a origem importa. “Faz apenas um mês que o governo começou a deportar ilegalmente pessoas que poderiam ter sido avós de Raheem Sterling e Jesse Lingard [dois dos melhores jogadores da seleção inglesa, ambos titulares indiscutíveis]”.

Mais: “A jovens como Dele Alli e Danny Welbeck [outros dois bons jogadores], com pais da Nigéria e Gana, respectivamente, lhes é rotineiramente dito que deveriam ser grato pelas oportunidades que a Grã Bretanha lhes deu —uma lembrança de que, embora sejam britânicos, não são da mesma classe dos britânicos brancos. E, embora jogadores britânicos sejam famosos o suficiente para que não sejam parados e submetidos à revista, terão amigos para os quais essa é uma ocorrência depressivamente regular".

Preciso dizer que, no Brasil, não é muito diferente com os negros?

Bloomfield, aliás, faz no seu artigo sobre a seleção inglesa uma alusão direta ao Brasil: “Seleções nacionais de futebol são um reflexo mais verdadeiro de uma nação do que seus governos ou suas elites. Há mais jogadores negros no time brasileiro do que no ministério".

Poderia ter acrescentado que há mais jogadores negros na seleção do que no Congresso Nacional ou nos tribunais de justiça ou mesmo no jornalismo.

Para Bloomfield, a explicação é simples: “O futebol é uma verdadeira meritocracia. Não importa que escola você frequentou, quem seus pais conhecem, ou quanto dinheiro você tinha enquanto estava crescendo. A raça é também um fator secundário [no futebol] na comparação com qualquer outra esfera da vida”.

O artigo faz uma ressalva importante: a raça importa pouco no campo, mas fora dele, “o futebol ainda é tão racista quanto a sociedade britânica, seja nas tribunas como nas diretorias".

Vale para a Inglaterra, vale para o Brasil: quantos negros você consegue contar na torcida brasileira na Rússia?

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